Lá fora as pessoas vogam, deambulam, correm apressadas ninguém sabe muito bem para onde. Apressam-se por costume, por vontade, como se fugissem da vida que as persegue, procurando refúgio na parede familiar, de adornos calculados para agrado da raínha da casa, a caixa mágica da desilusão.
É a luta do transporte, do horário que dificulta, ou seremos nós a precisar de sentir a tarefa urgente, necessitam de nós, temos importância, por isso, viajámos rápido, cadáveres em caixões de metal, todos podem ver como somos fundamentais.
O eléctrico passa sobre o metal e tudo treme à sua volta, apenas os nossos castelos se mantêm intactos, pedra sobre pedra, para contento das nossas convicções.
Porque não comunicámos, porque nos escondemos numa suposta indiferença superior, quando na realidade queremos apenas compaixão, que nos olhem e sintam a avidez do que temos para oferecer.
Alturas houve, nas quais o anseio seria a sobrevivência, hoje procuramos a opulência, desejamos ser donos do destino e entregámo-nos para que sejamos credivéis aos olhos dos outros, com glamour, sem eclodir, sem consciência da merda que sai das entranhas, a mesma matéria visível que todos pomos a escorrer para o oceano, outrora puro e limpo, vida inocente que insistimos em conspurcar a favor do que chamamos civilizado.
Assisto à criação humana, à beleza, peça teatral, rachas coniformes a formar cidades de buracos abertos nas paredes onde apenas a lubrificação do suor, da urina, nos permitem a entrada, aí sou civilizado; no meio do nada, o todo natural, vegetal, sou um homem, ser animado, animal, parte integrante do complexo de cacarejares e ruminanços que enchem as rotinas de todos nós, os despojados.
Sou o pombo, vida fácil, procura da migalha, arrulho, largo o excremento, entrego-me sem medos desnecessários. Vomito, quer sejam palavras ou liquido biliar, vomito, sem medo da censura e das ideias feitas, nem tudo pode ser moderação... a voz fraca, envelhecida, também poder ser ouvida pela multidão, para tal basta estar à espreita, atento aos outros, ao outro.
Eu, o abominável homem amoral, disposto a tudo pela minha satisfação, dou asas ao hedonismo e, pergunto a todos como aguentam a pressão volumétrica, metálica, do gás que impede a respiração, a liberdade, que penetra pelas narinas, olhos, orelhas, poros, e vos encanta, domina, indica como agir, separa o certo do errado. O gás do consciência criado a ouvir os outros, os fantasmas criados, figuras espectrais em forma de números, binómios, palavras, sensações.
Criámo-nos à nossa imagem, louvado seja o Senhor por nós criado!