pre-conceitos

Porque o preconceito é o absurdo e Nós somos o Absurdo...

Nome: Pirsig´s ghost

Sábado, Junho 04, 2005

Encontro

O cão ladra, no meio do passeio citadino, ao inimigo invisivél, enche os pulmões de coragem, expele medo em forma de latido. Abana o tique nervoso de pelo hirsuto.
O homem-rato procura tranquilidade, caminha vazio, repete palavras, gestos, o cão late hiante e treme de solidão.
O rato afaga o bigode, alisa a viscosidade que nele habita e o cuida. Sozinho, caminha dois passos, pára, espreita as janelas e implora, companhia, camisa de guia até ao furo da alma.
Escorre pelo bueiro e é novamente homem, enterra as mãos no lodo, inspira e sente o cheiro, urina velha, alimento, sorri para o lado, mergulha no prândio fugaz, incompleto.
Suga, sente o corpo forte, a espinha endireita, eclodem os sapos que se alimentam dos vágados até que a finitude o devolva ao líquido, canibal que expolia o sexo, depois os pés, mãos, orelhas, nariz, olhos, nada restará, senão o gás tóxico da existência, flutua, ninguém para julgar, é livre.

Sábado, Maio 28, 2005

Assombro

Lá fora as pessoas vogam, deambulam, correm apressadas ninguém sabe muito bem para onde. Apressam-se por costume, por vontade, como se fugissem da vida que as persegue, procurando refúgio na parede familiar, de adornos calculados para agrado da raínha da casa, a caixa mágica da desilusão.
É a luta do transporte, do horário que dificulta, ou seremos nós a precisar de sentir a tarefa urgente, necessitam de nós, temos importância, por isso, viajámos rápido, cadáveres em caixões de metal, todos podem ver como somos fundamentais.
O eléctrico passa sobre o metal e tudo treme à sua volta, apenas os nossos castelos se mantêm intactos, pedra sobre pedra, para contento das nossas convicções.
Porque não comunicámos, porque nos escondemos numa suposta indiferença superior, quando na realidade queremos apenas compaixão, que nos olhem e sintam a avidez do que temos para oferecer.
Alturas houve, nas quais o anseio seria a sobrevivência, hoje procuramos a opulência, desejamos ser donos do destino e entregámo-nos para que sejamos credivéis aos olhos dos outros, com glamour, sem eclodir, sem consciência da merda que sai das entranhas, a mesma matéria visível que todos pomos a escorrer para o oceano, outrora puro e limpo, vida inocente que insistimos em conspurcar a favor do que chamamos civilizado.
Assisto à criação humana, à beleza, peça teatral, rachas coniformes a formar cidades de buracos abertos nas paredes onde apenas a lubrificação do suor, da urina, nos permitem a entrada, aí sou civilizado; no meio do nada, o todo natural, vegetal, sou um homem, ser animado, animal, parte integrante do complexo de cacarejares e ruminanços que enchem as rotinas de todos nós, os despojados.
Sou o pombo, vida fácil, procura da migalha, arrulho, largo o excremento, entrego-me sem medos desnecessários. Vomito, quer sejam palavras ou liquido biliar, vomito, sem medo da censura e das ideias feitas, nem tudo pode ser moderação... a voz fraca, envelhecida, também poder ser ouvida pela multidão, para tal basta estar à espreita, atento aos outros, ao outro.
Eu, o abominável homem amoral, disposto a tudo pela minha satisfação, dou asas ao hedonismo e, pergunto a todos como aguentam a pressão volumétrica, metálica, do gás que impede a respiração, a liberdade, que penetra pelas narinas, olhos, orelhas, poros, e vos encanta, domina, indica como agir, separa o certo do errado. O gás do consciência criado a ouvir os outros, os fantasmas criados, figuras espectrais em forma de números, binómios, palavras, sensações.
Criámo-nos à nossa imagem, louvado seja o Senhor por nós criado!

Quarta-feira, Maio 18, 2005

Adeus

A Deusa da Carapinha esperava, não era por mim, um qualquer anónimo sem rosto nem voz. Se intervisse, teria a sua atenção? Seria ela capaz de deixar Zeus na terra dos trovões e arrulhar com o mortal do metal preto? Podes sentar mais perto, eu não sou mau! Sou triste, angustiado, procuro mostrar que vivo, sinto, tenho ideologia..., mas não, sou apenas humano e amo-te a ti, como à mulher do véu azul e pinta na testa, como ao homem de fato, que esconde o incómodo telemóvel. Amo e quero ser amado, sem reservas ou medo; mostrar a minha podridão, o desconhecimento e, sentir-me feliz por isso..., não posso saber tudo, conhecer tudo, mas posso amar-vos a todos, se deixarem, se não julgarem pela diferença, pelo sotaque, pela timidez. Quero voar com os pássaros de penas matizadas, bicá-las em conjunto para satisfazer a minha sede, procurar o ovo da vida com os membros, ser perito em úteros, trompas de falópio musicais, gemidos mestiços, sangue humano, seiva orgânica de mulher de unhas cortadas, decoradas para não arranhar quando me torno amoque. Chego à varanda onde baloiças e quero penetrar-te, tenho vertigens e sinto o desejo irresistível de mergulhar na calçada portuguesa, dar o meu sangue à lingua canina como o dou ao banco humano. Tenho medo, sialorreio pela tua essência, a alma, enquanto viajo para o solo com o olhar fixo no teu lago húmido, na tua potente ventosa, que suga, segura e extraí pouco a pouco o que tenho em mim, o girino, que poliniza e cria a diferença. Que mais quero senão imiscuir-me nas coxas listradas, nos lábios grossos..., nunca vou saber o seu nome.

Frémito Pré-Ressaca

Quem procura... a felicidade no fundo da garrafa, encontra apenas os demónios escondidos na alma, o corpo transido, escurecido, incapaz de sentir a realização após o merecido orgasmo, à custa da dor dos orgãos intumescidos.
Quem procura...o valor encostado num sofá roçado, em frente ao grande olho enganador, que esconde a verdade, o desejo humano, a vontade de escravizar e expoliar todos os que nos rodeiam, mesmo aqueles quantos que intitulamos de amigos, a quem " júramos" amar, com o sangue vertido e celebrado em fraterna união, à volta do caldeirão assente no chão humoso e húmido da fábrica de tijolos esburacados, que deixam passar o frio e são habitação de vermes, insectos, seres rastejantes sem nome próprio, a quem apenas os latinos, tiveram coragem de nomear, por serem irmãos e reflectirem-se no mesmo espelho lunar criado pelas gotas de orvalho crepuscular.
Como pode o dia ser tão claro, luminoso e o crepúsculo tão colorido, matizado e, apenas no escuro, saem os homens e os ratos à procura da vida que escorre, tal qual o rio corre para a morte, à medida que as pedras de sal impedem os peixes de chegar ao ar, entupindo as guelras destes, deixando o mérito aos homens que os recolhem e negam o suícidio.
Cada vez que a vertigem atinge na forma de traçado, de fino borbulhante, copo de borra com aspecto de vinho, ganho consciência que vou sofrer em lenta agonia, vómito constante de pus e seiva humana.
Tudo pela vertigem do corpo ululante, da voz esganiçada de tanto chamar a atenção do amor alheio ao teu...

Quarta-feira, Maio 11, 2005

Absurdo

Mortos e desaparecidos na Segunda Guerra Mundial:

União Soviética - 21.300.000
Alemanha - 7.060.000
Polónia - 5.420.000
França - 610.000
Reino Unido - 512.000
Itália - 415.000
EUA - 295.000
Outros - 3.842.000

Estes dados foram retirados do jornal " O Público " de 8 de Maio de 2005, que por sua vez usou como fontes: The Times Atlas of World History, Encyclopedia of World War Two; Military Advantage; History Learnig Site

" Por qualquer razão, o homem espera o milagre, e para o conseguir é capaz de abrir caminho atolado em sangue. Corromper-se-á com ideias, reduzir-se-á a uma sombra, se ao menos durante um segundo da sua vida puder fechar os olhos à hediondez da realidade. Suporta-se tudo - desgraça, humilhação, pobreza, guerra, crime, ennui - na crença de que da noite para o dia acontecerá qualquer coisa, um milagre que tornará a vida suportável. "

Estas palavras de Henry Miller, no seu fantástico livro " Trópico de Cancér ", convidam-nos a reflectir um pouco mais sobre quem somos realmente; pergunto-me constantemente que palavras saíriam da sua caneta, se tivesse acesso a estes numeros, e vocês que comentário vos merece o acesso a estes simples algarismos?